Eu quero ser mulher sem ter medo.

Eu não pude me calar. A manchete estampava sobre a jovem violada por 30 homens! E eu não pude evitar. Não contive o pranto, o medo, as lágrimas e sequer a voz. Porque sim, eu chorei. Por ela, por mim, por todas nós. Não foi meramente um corpo violado. Foram almas. E eu não digo só a dela, mas a minha e a de todas as mulheres. Fomos penetradas por 30 homens. Fomos violentadas por 30 homens. Tivemos nossa pureza perdida por 30 homens. Eu choro não só por ela, mas por todas aquelas que tiveram suas vidas arrasadas por um único homem que seja. Sofro por ser mulher e saber que posso ser estuprada na primeira esquina e acima de tudo: ser culpada por isso. Saber que ali, poderia ser eu. O que de fato, não deixa de ter sido. Era o meu eu mulher, que queria curtir uma festa e acabei humilhada. Era o meu eu mulher que queria ter um pouco de felicidade sem ser exposta. Era meu eu mulher que queria poder seguir em frente sem ter medo. Era meu eu mulher ali, sendo estuprada por 30 homens. Era meu eu mulher que perdia sua vida ali, e que perdia por ser apenas mulher.

E sabe o que gira nesse momento na minha mente? Que esses 30 homens jamais farão ideia que destruíram da pior maneira possível uma vida. Por mais que estes paguem com a pena mais punitiva que seja possível, é ainda ela quem terá pago o pior castigo. É ela quem será assombrada por todos os seus dias. Será ela quem temerá envolver-se com qualquer que seja a pessoa. Será ela quem terá que carregar por todos os seus dias o terror que vivera. Será seu corpo que a repulsará por ser a lembrança real do que aconteceu. Será sua mente que estará sempre a beira da insanidade. Será seu coração que jamais baterá um único dia sem sentir a dor de estar quebrado em milhares de pedaços inconcertáveis. Será sua alma que estará para sempre perdida, fragilizada, com danos irreparáveis. Seremos sempre nós, mulheres, que viveremos nessa sociedade onde se é instalado o medo, o terror, o receio. Somos nós quem arcamos todos os segundos com o pior dos castigos por ser mulher.

Sou eu, mulher, que enxugo minhas lágrimas e respiro fundo, sabendo que a dor hoje compartilhada, não será-me nem a primeira e nem a última. Sabendo eu, que por ser mulher, posso estar a qualquer momento necessitando que compartilhem comigo tal dor. Receando eu que a futura garota nas manchetes tenha meu rosto, meu nome e minha identidade.

 

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Eu quero ser mulher sem ter medo.

10 comentários sobre “Eu quero ser mulher sem ter medo.

    1. Com certeza. Triste, indignante e que para muitos, assim como eu, gostaríamos de que sequer tivesse existido. Mas aconteceu, assim como tem acontecido muitas e muitas vezes, sem ter tamanha exposição. A realidade é triste, mas como dito, nos fortalece para ter cada vez mais voz.

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  1. A mudança de mentalidade é um processo demoradíssimo. Se os homens soubessem que eles também são ‘mulheres” – no sentido de que o orgão genital não define o ‘ser homen’ e nem o ‘ser mulher’, talvez evitaríamos muitos casos desses. Reparar, voltar no tempo, restaurar o corpo, varrer a dor e a revolta, purificar a indignação, recriar a alma, tudo isso é impossível. O fato fica eterno, jogado a nossa frente para que o resto da vida possamos espezinhá-lo e lembrar que ele existiu. O que podemos fazer é evitar futuros fatos: que os pais procurem saber com quem os filhos andam, que os filhos procurem saber onde e com quem anda, que a sociedade proteja os mais fracos…. Enfim, o que fica é mesmo a dor. Abraços.

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    1. “Apagar”, nada mais fácil, se fosse possível, não? Infelizmente teremos de lidar com todos esses fatos vergonhosos e humilhantes. Como bem posto, a mudança de mentalidade é um longo e até penoso processo. Requer e muito, afinal, estamos cercados por pessoas de mente repugnante, para não baixar o nível em palavras. Acredito que não podemos voltar no tempo, mas podemos mudar o que vem adiante. É triste, indignante e revoltante, mas é a partir de fatos assim que precisamos agarrar às lições que nos trazem e engajar-nos nessas lutas. Começar pelos menores, principalmente crianças, em ensinar-lhes a não mais ter a mente que muitos hoje em dia tem. Ensinar ao respeito, a dignidade, a aceitação. Aprender e eliminar esse egoísmo que habita e norteia a vida de muitos, e entender o lado do outro. Precisamos aprender aliás a educar novamente, a nos re-educar. Acolher a dor e torná-la combustível para a luta. É apenas isso que nos resta.
      Abraços e obrigada pela visita!

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  2. viciolicito disse:

    Simplesmente perfeito, parabéns!

    “… É ela quem será assombrada por todos os seus dias. Será ela quem temerá envolver-se com qualquer que seja a pessoa. Será ela quem terá que carregar por todos os seus dias o terror que vivera. Será seu corpo que a repulsará por ser a lembrança real do que aconteceu. Será sua mente que estará sempre a beira da insanidade. Será seu coração que jamais baterá um único dia sem sentir a dor de estar quebrado em milhares de pedaços inconcertáveis. Será sua alma que estará para sempre perdida, fragilizada, com danos irreparáveis. Seremos sempre nós, mulheres, que viveremos nessa sociedade onde se é instalado o medo, o terror, o receio. Somos nós quem arcamos todos os segundos com o pior dos castigos por ser mulher.”

    Beijos, tenha um ótimo dia!
    https://viciolicito.wordpress.com/

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